quarta-feira, 1 de julho de 2009

Debate de estratégia, programa e táticas no movimento estudantil

Os estudantes da USP mais uma vez mostraram sua força efetivando a greve em vários cursos e ao fazer o maior ato dos últimos tempos na Av. Paulista. O ato com Marilena Chauí e Antônio Cândido também teve uma presença massiva. No entanto, as assembléias, que deveriam ser um organismo reconhecido pelos estudantes, são cada vez mais esvaziadas, despolitizadas, com a “organização” da mesma sempre tomando mais tempo do que a discussão em si. Os independentes seguem sem nenhuma voz. Assim, apesar da disposição de luta dos estudantes, cresce o rechaço ao movimento estudantil tal como ele é e muitas vezes joga-se a responsabilidade por isso aos partidos.. Aqui, queremos debater justamente a política dos “partidos” para mostrar como não se trata da forma partido, mas do conteúdo (ou falta dele) da política que levantam.

DCE da USP: nada foi como antes?

Depois de anos de uma entidade dirigida burocraticamente pelo PSOL (que debatemos na pagina ao lado), os estudantes elegeram uma chapa que esperavam que cumprisse um papel superior na luta contra a reitoria e o governo. Prometia-se o “Nada Será Como Antes”. Seis meses depois, em meio a uma grande greve, é necessário um balanço para tirar as lições.
Durante todo o ano, o PSTU teve uma política de secundarizar a mobilização concreta dos estudantes da USP para derrotar os ataques do governo e hierarquizar a construção do Congresso Nacional de Estudantes para fundar uma nova entidade, a ANEL. Não contentes, fizeram um CNE no qual se negaram a dar peso à luta da USP, apesar de toda a nossa batalha política. Mostrou-se como o PSTU segue a mesma prática do PSOL de utilizar a entidade somente para seus interesses de aparato e não para organizar a luta concreta dos estudantes.
Depois da entrada da PM no campus, os estudantes de vários cursos atropelaram o PSOL e o PSTU e impuseram a greve. Ainda assim, muito cursos onde estas correntes estão sequer entraram na greve. Quando a PM reprimiu brutalmente a manifestação do dia 9, o PSTU primeiro propôs uma “dispersão organizada” e depois fazer uma assembléia com uma minoria dos estudantes. Mais uma vez, o movimento foi mais forte e impôs a maior assembléia da mobilização. Não à toa, nessa assembléia se escutou um massivo “Fora DCE”.
Agora, a política do PSTU é de apresentar o recuo do governo na questão da Univesp como uma vitória praticamente histórica, o que nada mais é do que a preparação do discurso das eleições do DCE no fim do ano.
O PSTU se mostrou completamente desorientado na greve. Não levantaram nenhuma proposta que tenha sido essencial na mobilização. Essa experiência com o PSTU no DCE deve levar à conclusão de que é necessário uma oposição de esquerda conseqüente, verdadeiramente anti-burocrática.

Que os independentes falem nas assembléias gerais

Frente às assembléias anti-democráticas, sempre propusemos que fosse garantida somente uma fala para cada corrente política (que poderia ser de 5 minutos, por exemplo) e que se abrisse a fala para todos os independentes.
Contra essa política de que os estudantes possam assumir as rédeas do movimento democraticamente, unificam-se todas as correntes, desde o PSOL ao PCO, ainda que com matizes. Para citar somente algumas expressões: o PSOL não convocou assembléias em vários cursos, boicota qualquer coordenação geral do movimento e, defendeu um “comando de delegados” de maneira oportunista, assim como o PSTU, não com o conteúdo democrático com defendemos, mas simplesmente para deslegitimar outro “comando”, o da ocupação do DCE que era dirigido burocraticamente pelo MNN e o PCO. Mas apesar dessa diferença entre dois tipos de comando burocráticos, todos se unificam contra a expressão dos independentes nas assembléias.

A ausência de uma política de organizar o movimento pela base

Desde o começo da greve, defendemos a política de auto-organização dos estudantes, para organizar o movimento estudantil democraticamente, de baixo para cima, mantendo o poder de decisão sobre os rumos do movimento na base dos cursos em greve, transformando-os no centro da greve. Essa é a única maneira de garantir a massividade e a democracia do movimento.
Se tivéssemos conformado um comando de greve com delegados mandatados pelas assembléias de base, revogáveis a qualquer momento, poderíamos ter constituído uma alternativa a este movimento burocrático hoje existente.
Avançar para um movimento estudantil na USP que se organize em base à democracia direta é uma questão de vida ou morte e já está se transformando em uma discussão tardia. É urgente unificar os setores anti-burocráticos com essa política que foi a forma como se organizou o movimento estudantil em seus grandes auges, como na luta contra o Contrato de Primeiro Emprego na França de 2006 e na greve da Universidade Autônoma do México em 1999-2000.

Precisamos de radicalização para além dos discursos

Qualquer um que participou minimamente do movimento viu a atuação do MNN e do PCO que atuaram juntos desde a ocupação do DCE. Essas correntes se apresentam como se fossem ultra-radicais, mas um olhar atento mostra como isso não passa de discurso para atrair estudantes de esquerda.
Primeiro, tratavam a ocupação do DCE como se fosse a aplicação do programa “Território Livre”, que foi incapaz de desencadear um grande movimento e funcionava de maneira burocrática com “comandos” esvaziados dominados por eles. Por causa dela, já chegaram a explodir as assembléias..... Por quê? Por causa da chave do espaço! Quando a greve dos trabalhadores já passava de 20 dias, o MNN e o PCO tiveram a falta de vergonha na cara de chamarem os trabalhadores do Comando de Greve “pelegos” por não aderirem à ocupação da reitoria no dia 25/05. Isso ao mesmo tempo em que o MNN não conseguia levar nenhum estudante da FAU (onde dirigem) para as manifestações e nem muito menos aprovar paralisações de um dia neste curso.
O MNN grita muito alto Fora PM, mas saíram correndo no fatídico dia 9/6 enquanto os estudantes eram bombardeados. Gritam muito alto o Fora Suely, mas não apresenta nenhum programa de democratização real do regime universitário e nenhuma proposta para massificar essa luta. Se alguém pergunta para eles, não vão mais do que escutar a abstração de “Território Livre”. Quando os estudantes estavam se enfrentando com os fascistas, eles queriam implantar uma reunião de comando, para o qual depois não tiveram nenhuma proposta. Falam (timidamente) contra a Univesp, mas não apresenta nenhuma política de democratização do acesso, que eles são contra. Não defendem uma política de permanência estudantil nem mais verbas para a universidade. Mostra-se como por trás dos gritos de “radicalizar”, se esconde um conteúdo extremamente conservador que é incapaz de golpear a universidade tal como ela é hoje, elitista e racista. Enfim, muita forma, pouco conteúdo.

Por um movimento estudantil massivo, anti-burocrático e aliado aos trabalhadores
Construamos juntos o Movimento A Plenos Pulmões

Durante toda a greve, apresentamos um programa que partia da análise da situação e levantava um programa de ação e de organização do movimento. Chamamos os que não tiveram acesso aos nossos materiais a conhecê-lo em nosso blog, assim como buscar os informes da nossa atuação em diversos campus das estaduais paulistas.Nosso intuito é o de, na medida das nossas forças, aportar para que surja um movimento estudantil verdadeiramente novo, radical para além dos discursos. Um movimento estudantil que alie-se aos trabalhadores para democratizar radicalmente as universidades e impedir que a crise que os capitalistas geraram e estão tentando descarregar nas nossas costas seja paga por eles! Retomemos os grandes momentos do movimento estudantil em que ele fez história aliando-se aos trabalhadores

Um comentário:

Vladimir Lenin disse...

Só não entendi a defesa extremada dos chamados ''independentes'' (na verdade independentes da política revolucionária) em detrimento as correntes políticas. Essa sugestão de conceder apenas 5 minutos para cada corrente política e inscrição ilimitada aos ''independentes'' não passa de uma manobra anti-democrática, já que cada estudante deve ter garantido o seu direito a voz. É uma manobra de estudantes pelegos para impedir o avanço das idéias revolucionárias em favor da despolitização e da reação.