O MOVIMENTO A PLENOS PULMÕES E O DAF CONVIDAM TODAS E TODOS PARA DISCUTIRMOS!
SEXTA-FEIRA 06/11 HORÁRIO: 21:00 NA SALA DO DAF.
“O Estado, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP e suas demais agências de fomento poderão estimular e apoiar a constituição de alianças estratégicas e o desenvolvimento de projetos de cooperação envolvendo empresas e ICTESP’s1 voltadas para atividades de pesquisa e desenvolvimento que objetivem a geração de produtos e processos inovadores”.
O trecho acima é o artigo 3º da Lei Complementar nº1049, de 19 de junho de 2008, a Lei de Inovação Tecnológica do Estado de São Paulo. Essa lei é a comprovação nítida da intervenção governamental na autonomia universitária. Desde 2007 com os decretos, o governador José Serra vem dando demonstrações de como pretende colocar o processo pedagógico, a metodologia de ensino, as pesquisas científicas, os serviços prestados à sociedade, enfim, toda a universidade pública do Estado de São Paulo sob o controle direto do governo do Estado e dependente das intenções políticas dos partidos que estão no seu controle.
O governo tucano, a nível estadual e com uma política mais agressiva, serve aos mesmos interesses que norteiam a política federal do governo Lula1, que é o interesse das grandes empresas e monopólios industriais de possuírem cada vez mais o aporte do Estado, de suas agências de fomento e das universidades públicas para o desenvolvimento de novas tecnologias produtivas que possibilitem a sua sobrevivência no, cada vez mais competitivo, mercado internacional das mega-transnacionais. Além do aprimoramento na super-exploração do trabalhador, com a terceirização do trabalho, precarização das condições de segurança e higiene, utilização de mão-de-obra estrangeira e barata, inserção da qualificação “mão-de-obra especializada” para justificar uma diminuição brutal do piso salarial; os grandes empresários contam com o apoio do Estado e da União para a utilização de pessoal, infra-estrutura e verbas públicos para aprimorarem as suas taxas de lucro.
Essa lógica nefasta, macabra e perversa pode ser resumida e compreendida da seguinte maneira: imaginemos um trabalhador metalúrgico que pague mensalmente os seus impostos (descontados no salário, nas tarifas de contas, nas despesas alimentícias, etc.). Uma parte desses impostos arrecadados pelo Estado (9,57% do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços - ICMS) deve ser utilizado na manutenção, melhoria e ampliação das universidades estaduais paulistas. Levando em conta que, dos 7,2 milhões dos jovens entre 18 e 24 anos do Estado de São Paulo2, apenas um milhão cursa o ensino superior3, sendo que apenas 16% destes estão em uma universidade pública4, muito provavelmente os filhos deste trabalhador não estarão entre eles, o que, por si só, já é, minimamente, um contra-senso, para não dizer absurdo, afinal, o mínimo que um pai, que trabalha durante tanto tempo de sua vida e que reverte grande parte do seu salário para o funcionamento da universidade pública, espera, é que os seus filhos tenham garantido o seu direito constitucional5 de concluir seus estudos superiores em uma universidade que seja pública, gratuita e presencial e que, para isso, não tenham que se submeter ao filtro social que é o vestibular.
Se não bastasse o impedimento desse trabalhador e de sua família de terem acesso ao conhecimento historicamente acumulado pela humanidade e ensinado nas universidades, o conhecimento produzido, por meio das pesquisas científicas realizadas, não é direcionado à resolução dos problemas mais elementares dos quais eles são vítimas diariamente, como: moradia precária, condições de vida insalubres, doenças vetoriais e parasitárias, enchentes e desastres ambientais, meios de transporte insuficientes, entre outros problemas que, da mesma forma, contribuem para a manutenção de suas condições de vida precárias e insalubres. O conhecimento produzido nas universidades está, cada vez mais, vinculado aos grupos empresariais privados que, por meio de legislações sancionadas pela Assembléia e pelo governo do Estado ou pelo Congresso e pelas Medidas Provisórias (MP’s) do presidente Lula direcionadas às universidades públicas estaduais e federais, se tornam os maiores beneficiários do papel capacho que cumprem nossos reitores, diretores e aqueles docentes que permitem e se permitem à utilização suas e da universidade para lucros exorbitantes dos grandes monopólios.
Enquanto isso, caso o trabalhador brasileiro precise de um remédio para uma doença sua ou de um familiar, terá que esperar a avaliação da indústria farmacêutica de que o retorno da fabricação do remédio será lucrativo, caso a análise seja positiva, terá que esperar uma firmação de vínculo entre a indústria e a universidade pública ou um grupo de pesquisa para a fabricação do remédio. Só então o trabalhador terá o direito de comprá-lo com o seu salário, mesmo ele tendo sido fabricado somente devido aos impostos que ele paga diariamente ao Estado. O mesmo ocorre caso ele precise construir uma moradia adequada, ou caso precise de algum sistema de proteção contra enchentes, entre outras necessidades vitais.
Sem contar que, em breve, esse trabalhador será substituído por uma máquina tecnologicamente desenvolvida em alguma universidade financiada pelos seus impostos. Conclusão, quando a exigência do aumento da produtividade do operário no trabalho atinge o seu limite de exploração, gerando mais e mais miséria para o trabalhador, o patrão o substitui por uma tecnologia mais desenvolvida adquirida devido ao suor do próprio operário e coloca-o na rua sob a condição de desempregado.
Com toda essa análise chegamos ao Congresso de Iniciação Científica (CIC), um espaço que teria tudo para ser um local de troca de informações entre os diversos pesquisadores espalhados pelos 23 campi da UNESP, em que poderia ocorrer discussões e debates muito qualitativos acerca da resolução dos inúmeros problemas sociais, inclusive com ações imediatas, diretas e autônomas, independentes de interesses empresariais e de outros grupos alheios tanto às universidades (como as fundações de direito privado) quanto às demandas do seu maior investidor: a classe trabalhadora.
Porém, o que vemos, é um espaço totalmente voltado para o aprofundamento das relações universidade/empresa e da transformação do estudante e pesquisador em empreendedor. Um espaço voltado mais para a divulgação às empresas de qual grupo de pesquisa possui um melhor projeto de desenvolvimento tecnológico e de engenharia não-rotineira do que para o aprimoramento das relações entre os estudantes e pesquisadores das diversas unidades da UNESP. Haja vista o enorme aporte financeiro da reitoria na melhoria da infra-estrutura do campi sede do CIC para causar uma aparente “boa impressão” nas multinacionais visitantes. A comunidade do IBILCE reivindica há anos a reforma dos vestiários e banheiros do instituto, assim como a contratação de funcionários para o funcionamento do Restaurante Universitário (R.U.), sendo sempre alegada a falta de verbas. Porém, “surpreendentemente”, no segundo semestre de 2009, inúmeras reformas tomaram corpo no IBILCE, assim como a abertura de concurso para a contratação de funcionários para o R.U.
É por todas essas razões que nós exigimos e gritamos em alto e bom som:
Para que todos os que queiram tenham o direito assegurado de cursar o ensino superior público, gratuito e presencial:
- Pela estatização das instituições de ensino particulares e pelo fim do vestibular, pois o acesso ao conhecimento deve ser público em todos os seus níveis;
- Pela valorização do professor da rede pública!
Para que todos possam definir os rumos das universidades públicas:
* Democracia na gestão, na administração e nas eleições:
- Que os cargos eletivos da universidade não sejam restritos aos docentes;
- Pela dissolução do Conselho Universitário (C.O.) e demais estruturas burocráticas;
- Por um governo e eleições proporcionais entre docentes, estudantes e funcionários!
Para que todos tenham acesso ao conhecimento produzido nas universidades:
- Pelo fim das parcerias público-privadas (PPP’s);
- Pelo fim das fundações públicas de direito privado;
- Por uma produção de conhecimento livre, autônoma e desvinculada dos interesses do capital!
1 No âmbito federal, o governo Lula sancionou em 02 de dezembro de 2004, a Lei nº10.973, que dispõe sobre incentivos à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo e dá outras providências.
2 Dados do site Info Escola referentes ao número de jovens entre 18 e 24 anos no Estado de São Paulo em 2000.
3 Dados do IBGE, segundo a Folha de São Paulo de outubro de 2009
4 Dados do Portal Fator Brasil de 2009: “Ensino Superior: mesmo com os avanços ainda é uma realidade para poucos”
5 No artigo 205 da Constituição Federal, afirma-se: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família”. No 206, especifica-se que: “O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: [...] IV gratuidade do ensino público nos estabelecimentos oficiais”. Inova-se a formulação da gratuidade, assegurando-a em todos os níveis na rede pública, ampliando-a para o ensino médio, tratada nas Constituições anteriores como exceção
e, para o ensino superior, nunca contemplada em Cartas anteriores.
1 ICTEP’s: Instituição Científica e Tecnológica do Estado de São Paulo, órgão de administração pública estadual, com permissão de compartilhar todas as suas instalações com empresas associadas, podendo desenvolver projetos de inovação tecnológica em conjunto com instituições públicas e privadas, podendo transferir o direito de uso de exploração de criação que tenha desenvolvido para empresas, sendo os contratos considerados sigilosos e protegidos de divulgação e a propriedade intelectual sobre os resultados obtidos pertencentes às empresas detentoras do capital social.
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